Este é um texto que está circulando nos e-mail da vida que, teoricamente, é de autoria de Lúcio Mauro Filho. Se alguém souber confirmar essa informação (de repente, até o próprio), por favor, diga-nos comentando neste texto bastante, digamos, “recordativo”.

Fé demais não cheira bem
Em outubro de 2002, nós artistas fomos convidados a participar de um encontro com o então candidato à Presidência da República Luis Inácio Lula da Silva, na casa de espetáculos – Canecão, no Rio de Janeiro.
Fui ao encontro como eleitor de Lula desde o meu primeiro voto e também como cidadão brasileiro ansioso por mudanças na forma de se fazer política no país.
O clima era de festa, com muitos colegas confraternizando e um sentimento que desta vez a vitória viria.
Na porta principal da casa, uma tropa de políticos do PT e da coligação partidária recebia a todos com bottons, apertos de mãos firmes e palavras de ordem.
E no meio de quadros tão interessantes da nossa política, este que vos fala foi recebido justamente por quem?
Pelo Bispo Rodrigues (hoje ex-político e ex-religioso).
As pulgas correram todas para trás da minha orelha.
Ser recebido no encontro do Lula com os artistas pelo bispo da Igreja Universal, filiado ao extinto PL, não era bem o que eu esperava daquela ocasião.
Era um prenúncio claro do que viria a acontecer depois.
Veio o apoio do PTB de Roberto Jefferson, que tinha horror a Lula, mas que mesmo assim acabaria recomendando o voto no candidato do PT, como forma de desagravo ao então presidente do seu partido, José Carlos Martinez, que por sua vez tinha ódio por José Serra, a quem considerava culpado pela volta aos jornais da história do empréstimo que ele teria recebido de Paulo César Farias, no início dos anos 90.
Com essa turma, a candidatura de Lula chegava à reta final.
A vitória veio e, com ela, uma onda de otimismo e de esperança em dias melhores, de mais inclusão, mais justiça social e menos corrupção e descaso.
Éramos os pentacampeões mundiais no futebol e com Lula presidente ninguém segurava essa Nação.
Pra frente Brasil!
Depois de dois anos de namoro, os ventos começaram a mudar com o surgimento de uma gravação onde Waldomiro Diniz, subchefe de assuntos parlamentares da Presidência da República, extorquia um bicheiro para arrecadar fundos para as campanhas eleitorais do PT e do PSB no Rio.
O fato foi tratado como um deslize isolado de um funcionário de segundo escalão que de forma alguma representava a ideologia do Partido dos Trabalhadores. Waldomiro foi afastado do governo.
Em meados do ano seguinte surgiu uma nova gravação, onde o então funcionário dos correios Maurício Marinho aparecia recebendo dinheiro de empresários.
Ele dizia ter autorização do deputado Roberto Jefferson do PTB.
Em defesa de seu aliado, o presidente Lula afirmou na época que confiava tanto em Jefferson que lhe daria um “cheque em branco”.
As investigações foram aprofundadas e na base do “caio, mas levo todo mundo junto”, o deputado afirmou em entrevista à “Folha de São Paulo” que existia uma prática de mesada paga aos deputados para votarem a favor de projetos de interesse do governo.
Lula deu o cheque em branco e recebeu de volta a crise que derrubaria, um por um, os homens fortes do seu partido.
E de uma hora para outra, José Dirceu, José Genoíno, Antônio Palocci, João Paulo Cunha e outros políticos que tanto admirávamos, chafurdaram na lama da política suja, com histórias de abuso de poder, tráfico de influência e até coisas inimagináveis, como dólares transportados em cuecas e saques em boca de caixa totalmente suspeitos.
Acabou a inocência. O PT começou a desprezar quadros importantes do partido que não concordavam com as posições incoerentes com a luta pela ética e a moralização do país.
Pior do que isso, acabou por expulsar alguns deles, como a senadora Heloísa Helena e os deputados Babá e Luciana Genro.
Outros saíram por, também, não concordarem com as práticas até então impensáveis para um partido que se julgava detentor da bandeira da honestidade. E assim partiram Cristovam Buarque e Fernando Gabeira.
Apesar de toda uma nova geração de políticos interessados em refundar o partido e aprender com os erros, como José Eduardo Cardozo, Delcídio Amaral e Ideli Salvati, o PT preferiu manter a estratégia do aparelhamento, do fisiologismo e do poder a todo custo, elegendo o “pau mandado” Ricardo Berzoini novo presidente do partido.
Ele representava o Campo Majoritário, grupo que sempre esteve na presidência do PT, desde sua fundação.
Depois que nada foi provado na CPI do Mensalão, o Partido dos Trabalhadores percebeu que a bandeira da ética já não importava mesmo e começou novamente uma fase “rolo compressor” de conchavos e blindagens com o que há de pior na política brasileira.
Veio o segundo mandato e com ele o fato.
O presidente Lula cada vez mais nas mãos do PMDB, o partido que definitivamente não está nem aí com ideologias, ética ou qualquer coisa parecida.
Depois da derrocada dos grandes caciques do PT, restou Dilma Roussef, a super ministra, como única opção de candidatura para a sucessão do presidente Lula. Mas Dilma não tem carisma nenhum.
É uma figura técnica, fria.
Precisa desesperadamente do presidente preparando palanques com dois anos de antecedência, emprestando toda a sua popularidade, como uma espécie de “ghost charisma”.
Precisa também do PMDB com seus acordos e chantagens como co-patrocinador político da candidatura.
Para isso, foi preciso o governo se meter em mais outra crise e comprovar que é muito mais PMDB que PT.
Depois de Jefferson, Bispo Rodrigues, Severino Cavalcanti, os eleitores do Lula estão tendo que agüentar o pior.
Ver o presidente de mãos dadas com Fernando Collor, Renan Calheiros e José Sarney.
E ver um Conselho de Ética formado em sua maioria por suplentes como os senadores Wellington Salgado, Gim Argello e até o presidente do conselho, Paulo Duque, que afirmou que “adora decidir sozinho”.
No momento em que políticos como Aloizio Mercadante tentam juntar os cacos do PT, tomando atitudes coerentes com o que o partido sempre pregou, lá vem o executivo com sua emparedada já tradicional, desautorizando o líder de sua bancada, mais uma vez constrangido pela direção do PT.
E as promessas as quais me referi lá atrás, Delcídio e Ideli, votaram a favor do arquivamento de tudo e da permanência do que aí está.
Mais uma vez, o fim justifica os meios.
E assim é a vez de Marina Silva abandonar o barco, cansada de guerra.
A ex-ministra do Meio Ambiente que viu o presidente Lula entregar nas mãos do ministro extraordinário de assuntos estratégicos, Mangabeira Ünger, o Programa Amazônia Sustentável (PAS).
Justo ela, uma cidadã da Amazônia.
Foi a gota d’água.
Desautorizada, Marina deixou o cargo.
Agora, deixa o partido.
E o Mangabeira Ünger? Voltou para Harvard para não perder o salário de professor (em dólar), deixando os assuntos estratégicos para o passado.
Esse é o atual panorama da política nacional.
Deprimente!
Políticos dizendo na cara de seus eleitores que realmente estão se lixando.
Acabou o pudor.
Com o presidente Lula corroborando tudo que é canalhice e uma oposição que é também responsável por tudo que aí está, pois governaram o país por todos esses anos e ajudaram a moldar todas as práticas que o governo do PT aperfeiçoou, talvez estejamos realmente precisando de uma terceira via.
Eu não sei se imaginei um cenário tão devastador quando constrangido evitei o aperto de mão do Bispo, lá na porta do Canecão.
Mas um trocadilho não me sai da cabeça: “Fé demais não cheira bem”




